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Reflexão a cerca do Filme: A História de Nós Dois

Psicóloga Fabíola B. Zaffari

Quando duas pessoas se encontram e se encantam inicia uma nova história, pois não existe um Eu se não houver um outro.

Berenstein escreve que:

“Todo o sujeito é e existe vinculado, não existe o sujeito separado. O vínculo estabelecido não passa pela percepção, é da ordem da representação”.

Segundo a teoria vincular cada sujeito vive simultaneamente em três mundos: o mundo interno (intra-subjetivo), o mundo vincular (intersubjetivo) e o mundo sociocultural (transubjetivo).

O mundo vincular é a denominação que representa um espaço, uma entidade simbólica, um registro que se constitui a partir das relações, entre os egos e tem lugar no mundo externo. Portanto, chama-se de dimensão intersubjetiva o que se passa no vínculo entre dois ou mais egos, inseridos em um contexto.

- O vínculo que se foi se estruturando entre Katie e Ben.

Puget e Berenstein definem casal como uma estrutura vincular entre duas pessoas que estabelecem o compromisso de fazer parte desta estrutura.

O desamparo originário e a diferença entre os sexos são a base para a definição da estrutura de um casal.

Para um casal ser reconhecido como uma estrutura foi definido parâmetros específicos:

- Cotidianidade: estabilidade baseada em uma unidade temporal e espacial caracterizada pelos intercâmbios diários. É um organizador dos ritmos, de encontros e não-encontros do casal. Porém de marcas impressas no caráter do ego, eu sou assim, eu gosto assim.

- Projeto vital compartilhado: é a ação de unir, representação de realizações e conquistas, situadas num tempo futuro.

- Relações Sexuais.

- Tendência monogâmica

Silvia Gamel refere que os casais estabelecem vínculos baseados em pactos e acordos que podem ser conscientes e inconscientes, que incluem crenças, valores, defesas, anseios.

Bem e Katie casados há 15 anos com dois filhos demonstram ser um casal apaixonado inicialmente, onde as características individuais e o jeito de cada um ser foram o que determinou a escolha de formarem um casal.

O par inicial lembra fusão, apaixona mento e sua imagem revela pouco espaço para a individualidade, a um espaço imenso para a vincularidade. “Nós” torna-se muito maior que “Eu” e “Tu”.

Ao diminuir a paixão, o enamoramento, frustações podem tornar-se intoleráveis, implicando uma distância tão grande que o “Nós” praticamente deixa de existir.

Bem e Katie deparam-se com um sentimento de estranheza, solidão, desamparo e falta de intimidade diante do conflito do casal.

Lembro aqui onde eles vão “comemorar” o aniversário de casamento. Parecendo um grande vazio entre eles, não havendo mais um sentido simbólico para tal comemoração, a não ser por manter algo aparente para os filhos.

Porém, a filha do casal percebe o que vem acontecendo com os pais, quando a mesma lembra a data comemorativa para o casal e depois refere não querer ir ao acampamento de férias. Parece sentir-se responsável em manter o pai e a mãe juntos. Isto ocorre também quando os pais vão ao acampamento e a filha percebendo algo estranho entre o casal vai dormir com eles e faz os pais darem-se as mãos.

A relação da Katie e Bem vinha marcada por ataques ao vinculo como algo difícil de se resolver. A comunicação entre eles passa a ser marcada por desentendimentos, mágoas e mal entendidos.

Então o casal resolve durante o período de férias dos filhos distanciar-se, aproveitando para refletir sobre o relacionamento.

Neste período relembram muitas situações, algumas tristes, outras engraçadas e se perguntam:

- O que aconteceu com a garota do capacete?

- Quando uma colher   tornou-se apenas uma colher?

Lembrei aqui da passagem onde o apartamento que iniciou a história dos dois foi destruído, e o sentido simbólico que pode estar ligado a este fato. Como se uma nova história deveria começar a ser escrita e vivenciada.

Durante o período que ficaram afastados Katie e Bem se defrontaram com questões existenciais.

A falência do mito da paixão e do amor eterno, a percepção da passagem do tempo e a transitoriedade da vida.

No início do filme Bem fala sobre a sua concepção de casamento – até que a morte os separe viveram felizes para sempre.

O término de um casamento em geral representa um fracasso do ideal de indissolubilidade e de fusão absoluta, deixando os protagonistas imersos na sensação de desamparo, frustação e solidão pag.66.

Berenstein refere que a motivação de uma separação frequentemente se relaciona com aquilo que fez a união, claro que transformado no curso do tempo com o reordenamento das circunstancias e a não atualização dos acordos. Nestas condições, não se reconhece como motivo do conflito aquele mesmo que foi determinante de eleição de objeto.

Os aspectos do vínculo e os aspectos pessoais que se encontram depositados no enquadre matrimonial, tendem a interromper com intensidade e violência, resultando numa experiência de ruptura da noção    de si mesmo, de continuidade das coisas e das relações com o meio.

No filme aparece Bem e Katie necessitando manter um contato, na tentativa de resgatarem o que foi perdido.

No jantar o que me chama atenção foi o olhar que ambos inicialmente trocaram, a conversa pouco intima, mas continuam mantendo uma linguagem de comunicação da família – Ponto alto – Ponto baixo.

Na tentativa de irem para cama aparecem os aspectos ligados as famílias de origem o que torna-se insuportável o vínculo.

Os modelos de identificação e objetos de desejo, os estímulos, as vivências junto as famílias de origem, é que fazem o sujeito a ser quem ele é, agir como age, a interferência das transmissões transgeracionais sobre a mente do indivíduo e sobre o modo como ele construirá sua própria história.

Bem diz: Katie você se tornou igual a sua mãe, tudo tem horário, tudo tem lugar, nada é espontâneo!

Bem que fazer o livro da avó que ficou casada por muitos anos (67). Este é o registro que ele tem de vinculo. Viveram felizes para sempre.

A decepção diante das diferenças pode provocar muita dor e muita ira, reativando as feridas narcisistas referentes a uma descoberta histórica mal – elaborada: o outro é “não – eu”.

“Não estou falando de ser um terceiro filho! Não estou falando de ter minhas necessidades atendidas! Estou falando de um olhar! Algo que diga que estamos no mesmo lado”, diz Bem.

Parece que Katie e Bem não conseguiram inserir algo novo na relação, como se tivessem ficado presos aos pactos e acordos do início da relação. (Viagem para a Europa).

Katie e Bem não são mais os mesmos, não são mais aquele casal divertido, brincalhão do início da relação. Com a redução do tempo disponível, o nascimento dos filhos, as questões profissionais e financeiras, as tarefas diárias há necessidade de reorganização e flexibilidade no vinculo.

Um dos desafios presentes no vinculo conjugal capaz de tomar satisfatória e saudável é o estabelecimento de acordos implícitos e explícitos.

Cada casal cria um modelo e deve-se ir se transformando com o passar do tempo.

(E como se casássemos com a mesma pessoa muitas vezes durante a vida).

No filme aparece Katie com condutas um tanto rígidas e obsessivas, tomado responsabilidades da casa para ela, controlando as ações de Bem e de seus filhos.

Talvez por algum tempo isto se faz necessário e fazia parte do acordo do casal. Bem era mais divertido e irresponsável e Katie mais controladora. Isto apareceu várias vezes no filme quando ela tem que escrever a carta para os filhos ao invés de transar com o marido, quando eles chegam em casa da viagem à Europa e Bem não cancelou o jornal. Quando durante a transa ela lembra da fada do dente, quando ela olha para o painel do carro e falta fluido de freio.

Os contrastes comportamentais muitas vezes estão a serviço de uma espécie de regulagem, prestam-se a acordos inconscientes que visam a equilibrar através de comportamentos opostos mascarando o conteúdo do conflito, permitindo a ambos manterem certa identidade e funcionalidade.

Katie diz: Você não entende que talvez não tenha nada a ver com você! Talvez eu tenha feito 5 mil coisas no dia e que eu esteja cansada. Bem: Eu não pedi para você assumir tudo.

Em outro momento Katie diz: “Você está me ouvindo? Já cuido de duas crianças, eu não preciso de mais uma, cuido de tudo por aqui”.

Em momentos críticos do casal, este acordo pode e deve ser revisado, com o objetivo de conduzi-los a um crescimento no plano vincular e intersubjetivo.

É necessário que haja significados e objetivos em comum. Caso contrário, a convivência se torna insuportável. No entanto, as diferenças movimentam e propõe novos desafios podendo enriquecer o vínculo.

Katie durante o afastamento do casal se permite conhecer uma outra pessoa e talvez entender o que se passou entre Bem e a secretária. Que foi apenas uma conversa.

Por outro lado Bem começa a organizar a sua nova casa e Katie fica admirada em ver que ele conseguiu administrar tudo muito bem (geladeira).

Para finalizar sugiro pensarmos a respeito da última cena onde Katie abre o seu coração par Bem, e assim eles desistem da separação.

Eu pensei em duas hipóteses:

- A primeira seria a dificuldade de se separar realmente, de enfrentar o novo, o desconhecido, em montar a família a qualquer custo.

- E a outra hipótese seria que Bem e Katie estavam desejando se separar daquela relação que vinham estabelecendo marcada por desacordos, brigas, sofrimento. Que realmente eles se amam e que querem viver de um jeito diferente, reconstruindo uma nova história com elementos novos e entendendo que eles também mudaram e necessitam reavaliar os pactos e acordos do início da relação.

A ajuda terapêutica vincular – a psicoterapia de casais e de famílias pressupõe revisar os motivos e os objetivos da escolha mútua, seus significados e funções, os conflitos a serem clareados e elaborados, as possibilidades de reconstrução do vínculo.

 

 


Publicado em 31.08.2016